quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Sejamos machos, mas leiamos Beauvoir !!!

     Em épocas onde ser macho é ser bom de cama e fingir que acredita na igualdade entre homens e mulheres e ser fêmea é cantar a tal de "Poderosa" e fingir múltiplos orgasmos, lembrei de uma escritora e também filósofa que costuma ser mais conhecida pelo seu discurso feminista do que por sua conduta como um ser transgressor na História. Simone de Beauvoir. Escritora-referência quando o assunto é liberdade feminina e existencialismo, a autora serve, ou pelo menos deve servir,  como boa iniciativa para conversas e análises quando o assunto vai além da relação homem-mulher. Ler Beauvoir é ter iniciativa de reconhecimento de que a mulher sempre foi um agente excludente das produções historiográficas, e quando nesta apareciam, eram sempre localizadas em lugares particulares, domésticos, simples. Entre as diversas análises que Simone de Beauvoir nos apresenta encontra-se a que a autora francesa revela que a trajetória humana e histórica sempre foi construída para o homem e pelo homem, sendo este pouco interessado na análise do macho e da fêmea, do homem e da mulher; segundo Beauvoir: " a humanidade é masculina; um homem não teria a idéia de escrever um livro sobre a situação peculiar de ser macho... e nunca se preocupa em afirmar a sua identidade como um ser de determinado gênero, o fato de ser homem é algo óbvio."
                                                   
                                                     

       Nesta foto registrada na década de 1950, nota-se toda a feminilidade presente em sua vida, presente também em todo o seu discurso e sua trajetória acadêmica. Pus essa foto propositadamente, há pouco mais de um ano, ela foi proibida de circular nas redes socais, o que só me atraiu a publicá-la aqui. Logo dela que traz com sua leitura para o gênero feminino um dose maior de combustível, tornando-se útil para assinalar a manifestação coletiva da insatisfação e do protesto que já vinham sendo gastos desde que mundo é mundo. Segundo Beauvoir: "Nenhuma educação pode impedir a menina de tomar consciência de seu corpo e de sonhar com seu destino; quando muito pode impor-lhe estritos recalques que pesarão mais tarde sobre toda a sua vida sexual". Sua principal contribuição é sempre propor a discussão democrática e as necessárias rupturas das estruturas psíquicas, sociais e políticas. Ao mesmo tempo que torna pública uma conscientização necessária da mulher; Beauvoir era declarada como "uma mulher que pensava como homem" devido a sua postura de não vitimização da mulher, mas sim busca por um melhor entendimento entre as relações. Cabe a nós homens com coragem e com orgulho reconhecer na busca da História das Mulheres, uma análise útil e necessária à construção da História, esta aparece como uma necessidade de tornar visível aquela que fora ocultada e lançar uma discussão em torno das condições que foram historicamente construídas a sua volta e que resultaram na sua segregação social e política tendo como consequência uma ampla invisibilidade da mulher como sujeito, inclusive como sujeito da História. Em relação a nós, seres tupiniquins, Beauvoir veio ao Brasil em agosto de 1960, trazendo com seus discursos influências que durariam a década de 1960 e todo o século XX. Não quero com esse post desvalorizar a "macharada", mas sim aconselhá-los a ver na luta das mulheres um alternativa eficaz para a boa convivência entre os sexos, sem esse maniqueísmo chato e gritante que diminui a luta e demoniza a nossa vida. Que não me soe um post feminista, apenas um alerta de boa leitura e boa convivência. SEJAMOS MACHOS, MAS LEIAMOS BEAUVOIR!!!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Um trago de poesia

     Fuçando meus cadernos de (ainda) vestibulando encontrei esse poeminha do autor maranhense Fernando Abreu, vale a pena lê-lo, afinal, um trago de poesia diária não faz mal a ninguém:
"Sempre por um triz
cada poema
uma cicatriz"

sábado, 21 de setembro de 2013

As pontes de Madison, a África e nós

      Confesso que a primeira vez que ví o livro intitulado As pontes de Madison, desdenhei (pensei: um livro com esse título não poderia ser interessante), desdenhei ainda mais quando soube que era romance (imaginava que fosse um livro estilo Bianca, Júlia e Sabrina, afinal o livro era da minha tia, leitora assídua desse tipo de literatura), mas eu tinha apenas 8, 10 anos. Mal sabia eu que iria ler e reler o livro umas três vezes. Pois bem, aí aparece a versão cinematográfica em 1995, (só vim assisti-lo em 2010) baseado no livro de Robert James Waller, (que me fez ler de verdade o livro) me encantando por completo, me apresentando a simples dona de casa Francesca (Meryl Streep) que não só movida pelo desejo de fugir à sua rotina matrimonial, mas também pelo seu desejo de dar vazão aos seus sentimentos se apaixona por um fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood). O filme apresenta em formatos de flash backs, uma paixão necessária a qualquer pessoa. Do desespero dos filhos de Francesca ao - lendo os diários da mãe que havia recentemente falecido - saber que ela havia traído seu pai ao alívio por saber que ela foi feliz na vida somos embalados nesta obra por conversas e danças à luz de velas de pessoas até então desconhecidas, que por diálogos despretensiosos, se encantam um pelo outro. O filme vai além de uma relação extraconjugal, o filme nos mostra um encontro possível, transcedente, necessário. O livro é excelente, mas o filme supera essa excelência nos mostrando um Meryl Streep "quarentona" mas ainda com um olhar de "primeira vez" que não satisfeita com as 4 noites de sonhos inimagináveis, pede pra ser levada "à África" (se é que vocês me entendem) e um Eastwood completo e gentil (incapaz de fechar a porta da casa de forma abrupta, o que faz toda a diferença para a dona de casa). O filme e o livro nem de longe são os meus prediletos, mas encantam qualquer um que teime em assistí-lo. Apesar de assistir várias vezes o filme (só neste ano foram 3 vezes, a última foi ontem) ainda espero com Francesca ver a caminhonete de Kincaid na estrada que leva à sua casa, ainda me desencosto do sofá e espero que Francesca abra a porta do carro de seu marido e vá encontrar com Robert que está a sua espera, debaixo de chuva. Apesar do casal se "encontrar" eles não acabam juntos, o que dá mais possibilidade de histórias como essa acontecerem alí, com a nossa vizinha, por exemplo. A lição que o filme nos deixa é que entre o doloroso existir com ou sem amor, é preferível escolher o último. Inaceitável é passarmos pela vida em brancas nuvens, não sendo capaz de sentir o coração disparar por ninguém, tampouco despertar paixão nos outros. Vai entender. Vamos ser sinceros, talvez nunca "iremos à África", mas peço que possamos permitir a cada dia virem à tona as Francescas e os Roberts que estão dentro de nós, insatisfeitos com a rotina, com a falta de audácia, com a falta de sentimentos, com a falta de amor. E lembrar que tudo começou num encontro inesperado a caminho das famosas pontes cobertas no condado de Madison, em Iowa, interior dos Estados Unidos. Mas como disse Guimarães Rosa a "felicidade se acha é em horinhas de descuido". Indico a leitura do livro, indico verem o filme. Indico viverem uma história parecida. Vale a pena.  
Cena do filme As pontes de Madison.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Vide Versos

     Se o pedido da vez é poesia, aí vai uma. Nascida em Curitiba em 1946, a poeta e haikaista, Alice Ruiz escreve desde os 9 anos, mas só publicou seu primeiro poema aos 26. Alice Ruiz também tem poemas cantados por Arnaldo Antunes (tais como Socorro) e por Zeca Baleiro (como a canção Quase Nada). Aí vai uma das maravilhas que ela escreveu: Devia ser proibido, extraído do livro Poemas pra tocar no rádio. Devia ser proibido não lê-lo.
Devia ser proibido
Devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais que respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido


sábado, 14 de setembro de 2013

De Audrey Hepburn´s à Julia Roberts: o cinema americano, a prostituta e a nova cinderela

         Que o cinema americano tende a se repetir e continuar criando influências nessa mutante sociedade não há nenhuma novidade, diante disso, personagens cada vez mais significativos se tornam presentes no imaginário do público que não se cansa de se imaginarem como se fossem os próprios protagonistas. Enfim, esse lenga lenga todo é só pra lhes mostrar que a prostituta ainda se encontra permanente e viva nas salas de cinema e nas mentes pensantes, encantando homens e mulheres com histórias pouco reais e um tanto libertadoras. De Bonequinha de Luxo (1961) de Blake Edwards à Uma Linda Mulher (1990) de Garry Marshall as prostitutas no cinema surgem sempre dispostas a apaixonar quem as tiver olhando; lindas, bem-humoradas e libertas de possíveis amarras que só a sociedade pode trazer, afinal a prostituta no cinema americano sempre é apresentada de forma pouco real e cada vez mais influente. Quem nunca quis ouvir Holly Golightly (Audrey Hepburn) cantando Moon River na sacada da sua janela? ou ver Vivian (Júlia Roberts) ao seu lado com decotes e mascando chicletes? Tal façanha do cinema americano é possível já que histórias de amor entre cliente e prostituta sempre fazem sucesso. Só que o desinteresse carnal que o cinema americano apresenta entre os personagens é quase irreal entre as esquinas de Los Angeles, Nova York ou do Brasil mesmo, assim como o possível falso luxo, a possível falsa felicidade das protagonistas ou transformação desta em novas cinderelas. Nos países latino-americanos, inclusive no Brasil, a prostituição é somada à miserabilidade, ao tráfico de drogas, à exploração sexual, à DST´s, nada encantador né ?!?. Nas produções historiográficas tal abordagem não é diferente, já que a prostituta é focalizada como resposta a uma situação de miséria econômica ou como transgressão a uma ordem moral rígida e castradora. As representações cinematográficas apresentam um prostituta que trabalha por fuga ao casamento e à monotonia da vida doméstica, representando a mulher com rebeldia e heroísmo; como sujeito feminino capaz de desafiar as imposições morais dos dominantes. Que o estigma de mulher que convive entre a liberdade e a libertinagem fascina, isso ninguém pode duvidar; as prostitutas com seu ar liberal e ousado entre tantas mulheres pudicas e tímidas buscam com seu comportamento desterritorializar os espaços a qual foram marcadas, influenciando assim nossas mulheres, ainda bem. Segundo Suely Rolnik em Cartografia Sentimental (2011) as mulheres vendo as possibilidades - que o só a audácia do cinema mostra -  se desterritorializam, modificam sua percepção de mundo, seus sonhos, seus costumes, sua vivência. A produção de novas máscaras (novos jeitos, gestos, expressões e palavras) que só a prostituta traz torna-se indispensável. No entanto as produções cinematográficas acabam sempre na tentativa de construir uma representação de prostituta diferente daquela que a antropologia e a historiografia estudam acerca da problemática da prostituição, os filmes acabam sempre se aproximando do conservadorismo ao mostrar uma mulher que no desfecho da obra procura um homem para tirá-la do prostíbulo, casar-se com ela e ter filhos assim como a sociedade “espera” que toda mulher faça. Com tal representação, a mulher acaba não se desterritorializando da família, do sexo, do lar, do outro, da gente. Permanecendo sempre como "objetos e presas" como aborda Michel Foucault.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"♫ Ah, look at all the lonely people♫"

       Inicio meu primeiro post, quase sem querer, em um blog que como o nome já entrega pretende escrever poesias, sinceridades, blá,blá,blá além de outras palavras, outras coisas, outras histórias. Que seja. Sendo este blog uma criação quase obrigatória, inicio com um trecho da belíssima canção Eleanor Rigby dos Beatles: "Ah, look at all the lonely people!" ou no simples português "prestem atenção nas pessoas solitárias!" . Peço e indico: olhem as pessoas solitárias, é .... Com manias de observadoras, esses seres que vivem pelos cantos (até da História) possuem uma visão crítica  profunda e necessária à História. Rotuladas de sujeitos simples e desnecessários à História dita oficial, esses sobreviventes à leituras de Cláudio Vicentino - que (in) felizmente fomos obrigados a engolir durante nosso Ensino Médio - impressionam; olhamos às Eleonor Rigby da vida, estas ao olhar da janela a História realmente acontecer, conseguem ver os melhores ângulos dos melhores fatos sem, no entanto, serem contaminadas pelos plantões jornalísticos e pelos professores marxistas maniqueístas nossos de cada dia. Que não me soe apologia a sermos platéia da própria História, apenas a permanência desses seres observadores, que conseguem ver nas entrelinhas, ver além do óbvio. Nós historiadores, necessitamos de tí Eleanor Rigby para com nosso ofício irmos além do que julgam nossas perspectivas e limitações. Finalizo meu primogênito post com mais um beatle song: "let it be, let it be..." ou não.