Que o cinema americano tende a se
repetir e continuar criando influências nessa mutante sociedade não há nenhuma
novidade, diante disso, personagens cada vez mais significativos se tornam presentes
no imaginário do público que não se cansa de se imaginarem como se fossem os
próprios protagonistas. Enfim, esse lenga lenga todo é só pra lhes mostrar que
a prostituta ainda se encontra permanente e viva nas salas de cinema e nas
mentes pensantes, encantando homens e mulheres com histórias pouco reais e um
tanto libertadoras. De Bonequinha de Luxo (1961) de Blake Edwards à Uma Linda
Mulher (1990) de Garry Marshall as prostitutas no cinema surgem sempre
dispostas a apaixonar quem as tiver olhando; lindas, bem-humoradas e libertas
de possíveis amarras que só a sociedade pode trazer, afinal a prostituta no
cinema americano sempre é apresentada de forma pouco real e cada vez mais
influente. Quem nunca quis ouvir Holly Golightly (Audrey Hepburn) cantando Moon
River na sacada da sua janela? ou ver Vivian (Júlia Roberts) ao seu lado com
decotes e mascando chicletes? Tal
façanha do cinema americano é possível já que histórias de amor entre cliente e
prostituta sempre fazem sucesso. Só que o desinteresse carnal que o cinema
americano apresenta entre os personagens é quase irreal entre as esquinas de
Los Angeles, Nova York ou do Brasil mesmo, assim como o possível falso luxo, a
possível falsa felicidade das protagonistas ou transformação desta em novas
cinderelas. Nos países latino-americanos, inclusive no Brasil, a prostituição é
somada à miserabilidade, ao tráfico de drogas, à exploração sexual, à DST´s,
nada encantador né ?!?. Nas produções historiográficas tal abordagem não é diferente, já que a prostituta é focalizada como resposta a uma situação de miséria econômica ou como transgressão a uma ordem moral rígida e castradora. As representações cinematográficas apresentam um prostituta que trabalha por fuga ao casamento e à monotonia da vida doméstica, representando a mulher com rebeldia e heroísmo; como sujeito feminino capaz de desafiar as imposições morais dos dominantes. Que o estigma de mulher que convive entre a
liberdade e a libertinagem fascina, isso ninguém pode duvidar; as prostitutas
com seu ar liberal e ousado entre tantas mulheres pudicas e tímidas buscam com
seu comportamento desterritorializar os espaços a qual foram marcadas,
influenciando assim nossas mulheres, ainda bem. Segundo Suely Rolnik em
Cartografia Sentimental (2011) as mulheres vendo as possibilidades - que o só a
audácia do cinema mostra - se desterritorializam, modificam sua percepção
de mundo, seus sonhos, seus costumes, sua vivência. A produção de novas
máscaras (novos jeitos, gestos, expressões e palavras) que só a prostituta traz
torna-se indispensável. No entanto as produções cinematográficas acabam sempre na tentativa de construir uma representação de prostituta diferente daquela que a antropologia e a historiografia estudam acerca da problemática da prostituição, os filmes acabam sempre se aproximando do conservadorismo ao mostrar uma mulher que no desfecho da obra procura um homem para tirá-la do prostíbulo, casar-se com ela e ter filhos assim como a sociedade “espera” que toda mulher faça. Com tal representação, a mulher acaba não se desterritorializando da
família, do sexo, do lar, do outro, da gente. Permanecendo sempre como "objetos e presas" como aborda Michel Foucault.
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